PROJETO GENOMAS SUS EM HUMAITÁ: MAPEAMENTO DO DNA AMAZÔNICO PROMOVE REVOLUÇÃO NA MEDICINA DE PRECISÃO PÚBLICA
Frame - Vídeo/Entrevista: Pesquisadora da UFPA à frente do programa Genomas Sus
Com a participação voluntária de centenas de moradores no Banco de Sangue local, iniciativa do Ministério da Saúde liderada pela UFPA mapeia a ancestralidade genética nortista para personalizar tratamentos e aperfeiçoar a eficácia de medicamentos no SUS.
O município de Humaitá vivenciou um marco histórico para a ciência e a saúde pública regional nesta terça e quarta-feira (dias 13 e 14). A cidade recebeu a visita da Dra. Ândrea Kely Campos Ribeiro dos Santos, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisadora principal do Centro Âncora da Amazônia, responsável pela coordenação do Projeto Genomas Brasil / Genomas SUS na Região Norte.
A ação mobilizou cerca de 300 moradores voluntários, que compareceram ao Banco de Sangue de Humaitá (anexo ao Hospital Regional Dra. Luiza da Conceição Fernandes) para a coleta de amostras de sangue. A partir desta quinta-feira, as atividades do projeto seguem para Porto Velho, capital de Rondônia.
A Importância Científica: O Mosaico Genético e a Farmacogenômica
A iniciativa, desenvolvida pelo Ministério da Saúde em parceria com centros de excelência do país, busca realizar o sequenciamento do genoma completo de indivíduos em todas as regiões do Brasil para preencher uma lacuna histórica na literatura científica mundial. Historicamente, a maior parte dos dados genéticos e dos medicamentos desenvolvidos globalmente apoia-se em estudos com populações de ancestralidade majoritariamente europeia.
Na Amazônia e na Região Norte, onde a população possui uma intensa miscigenação e uma rica herança genética indígena, europeia e africana, a resposta biológica aos tratamentos convencionais pode variar significativamente.
Segundo a Dra. Ândrea Kely, a análise farmacogenômica é um dos pilares centrais do Genomas SUS. Exemplo claro dessa variação é o captopril, um dos medicamentos mais prescritos no Brasil para o controle da hipertensão arterial. Estudos genéticos indicam que cerca de 30% da população da Região Norte apresenta variações biológicas que reduzem ou anulam a eficácia terapêutica desse fármaco. O sequenciamento genômico permite identificar previamente esses perfis, possibilitando que o SUS prescreva alternativas farmacológicas mais assertivas e seguras para cada paciente.
Da Medicina Curativa à Medicina Preventiva e de Precisão
Além da resposta aos medicamentos (farmacogenômica), o sequenciamento de DNA viabilizado pelo Genomas SUS permite uma transição fundamental no modelo de atenção à saúde: a passagem da medicina puramente reativa/curativa para uma medicina preditiva e preventiva. Ao mapear marcadores genéticos associados a riscos de desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (como diabetes mellitus e hipertensão) e a predisposições a doenças infectocontagiosas prevalentes na Amazônia (como malária e dengue), as equipes de saúde pública poderão intervir antecipadamente.
A combinação de fatores biológicos com o estilo de vida, hábitos alimentares e meio ambiente orientará condutas individualizadas, prevenindo o surgimento das enfermidades antes do surgimento dos sintomas.
Participação Popular e Continuidade na Região Norte
Para participar do estudo voluntário, os critérios exigidos foram: ser brasileiro nato, ter idade igual ou superior a 18 anos e não ter recebido transfusão de sangue nos últimos três meses. A expressiva adesão dos humaitaenses garantiu que o mapa genético da calha do rio Madeira e do sul do Amazonas esteja devidamente representado na base de dados nacional do SUS.
Com o encerramento da etapa de coletas em Humaitá, a equipe de pesquisadores do Centro Âncora da Amazônia dará continuidade ao cronograma na capital rondoniense, Porto Velho, expandindo o sequenciamento genômico que visa transformar a saúde pública no Brasil.

