OMAR X MARIA: SEGUNDO TURNO COMEÇA COM ARTICULAÇÕES EM MANAUS E NO INTERIOR DO AMAZONAS
Arte - Agência Brasil
Disputa pelo Governo do Amazonas entra em nova fase, marcada pela busca de alianças, transferência de votos e tentativa dos candidatos de ampliar seus discursos para além de suas respectivas bases políticas
A eleição para o Governo do Amazonas entrou oficialmente em uma nova fase. Depois de um primeiro turno com sete candidatos, a disputa ficou reduzida a dois nomes: Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL). O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Com a totalização das urnas, Omar terminou a primeira etapa na liderança, com 40,63% dos votos válidos, enquanto Maria do Carmo alcançou 24,49%. Roberto Cidade ficou em terceiro, com 21,91%, e David Almeida terminou em quarto, com 10,54%. Os demais candidatos somaram pouco mais de 2%.
A diferença entre os dois primeiros colocados estabelece uma vantagem inicial para Omar, mas não define a eleição. No segundo turno, os cerca de 32% dos votos válidos que não foram destinados a nenhum dos dois candidatos tornam-se o principal território de disputa.
Capital e interior entram no centro das articulações
A partir desta semana, Manaus e o interior passam a ser os principais palcos da negociação política.
Omar já sinalizou que pretende reunir aliados do interior para discutir a estratégia da segunda etapa. O candidato afirmou que quer transformar a campanha em uma discussão sobre um “programa de Estado”, buscando ampliar o diálogo com diferentes grupos políticos e evitando reduzir a eleição ao confronto ideológico entre direita e esquerda.
Essa estratégia é particularmente importante porque o segundo turno exige que o candidato líder amplie sua capacidade de comunicação. Omar precisa preservar sua vantagem no interior e, ao mesmo tempo, conquistar novos segmentos em Manaus.
Maria do Carmo, por sua vez, terá como principal desafio transformar a força do campo conservador em uma maioria eleitoral. A candidata chega ao segundo turno apoiada pelo PL e pelo Novo e mantém uma ligação política mais direta com o bolsonarismo, tendo recebido apoio de Flávio Bolsonaro durante a campanha.
A equação para os dois candidatos é diferente: Omar precisa ampliar; Maria precisa crescer.
O grande território de disputa: os votos de Roberto Cidade e David Almeida
Politicamente, o resultado de Roberto Cidade e David Almeida é um dos elementos mais importantes para compreender o segundo turno.
Juntos, os dois candidatos receberam mais de 32% dos votos válidos. Naturalmente, esses votos não pertencem aos candidatos derrotados nem podem ser considerados automaticamente transferíveis para Omar ou Maria.
Mas suas estruturas políticas, lideranças municipais, prefeitos, vereadores e grupos organizados possuem peso na segunda etapa.
Roberto Cidade representa uma fatia importante do eleitorado ligado ao centro e à direita moderada, enquanto David Almeida construiu uma base própria, particularmente relevante em Manaus.
A partir de agora, portanto, começa uma intensa negociação política: quem apoiará quem, em quais municípios, em que condições e com qual capacidade de mobilização?
É no interior que essas alianças poderão produzir alguns dos movimentos mais significativos da segunda etapa.
Onde Omar e Maria convergem
Apesar da polarização política, há pontos de convergência entre os dois projetos apresentados durante o primeiro turno.
Desenvolvimento econômico
Os dois candidatos defenderam a necessidade de ampliar as oportunidades econômicas do Amazonas e aproveitar melhor as riquezas existentes no território estadual.
A divergência está principalmente no caminho para alcançar esse objetivo e no grau de prioridade dado a diferentes atividades econômicas.
Infraestrutura e interiorização
A necessidade de melhorar a infraestrutura estadual também esteve presente nos discursos dos dois candidatos.
A BR-319 é um dos principais exemplos. Omar defendeu abertamente a pavimentação da rodovia e tratou a ligação entre Manaus e Porto Velho como estratégica para o desenvolvimento do Amazonas.
Maria do Carmo também construiu sua campanha sobre uma agenda de desenvolvimento, infraestrutura e melhoria das condições de vida da população do interior.
Para os dois, portanto, a distância entre Manaus e os municípios do interior aparece como um problema que precisa ser enfrentado pelo próximo governo.
Saúde, educação e serviços públicos
Outra convergência está na necessidade de melhorar serviços essenciais, principalmente saúde e educação.
A diferença aparece menos no diagnóstico e mais na forma como cada candidatura pretende administrar, financiar e executar essas políticas.
É justamente nesse ponto que o segundo turno pode ser mais interessante para o eleitor: menos slogans e mais detalhamento de como cada promessa será paga e executada.
Onde está a principal divergência?
A maior diferença entre Omar Aziz e Maria do Carmo está no campo político que cada candidatura representa.
Omar está apoiado por uma aliança que reúne PSD, Republicanos, MDB e a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Maria disputa pelo PL em coligação com o Novo.
Omar busca apresentar-se como candidato de experiência administrativa e capacidade de articulação institucional. Já Maria construiu sua candidatura sobre a ideia de mudança, procurando representar uma alternativa ao grupo político tradicional.
Essa diferença tende a ficar ainda mais evidente no segundo turno.
Economia e exploração das riquezas do Amazonas
Outro campo de divergência está no modelo de desenvolvimento.
Omar defendeu durante a campanha a exploração econômica de recursos naturais, incluindo potássio, terras raras e ouro, além da pavimentação da BR-319.
Esse discurso parte da ideia de que o Amazonas possui enorme riqueza natural, mas ainda não consegue convertê-la suficientemente em emprego, renda e melhoria dos indicadores sociais.
Maria do Carmo também se posicionou em defesa de uma agenda de desenvolvimento econômico e infraestrutura, mas sua candidatura se diferencia principalmente pela crítica à administração pública e pela promessa de mudança na gestão.
No segundo turno, portanto, será importante observar se Maria aprofundará uma agenda econômica própria ou concentrará a campanha na contraposição ao grupo de Omar.
Meio ambiente será um dos temas mais delicados
Aqui existe uma questão estratégica para os dois candidatos.
O Amazonas enfrenta problemas recorrentes relacionados a seca, queimadas, fumaça, desmatamento e pressão sobre áreas protegidas. Ao mesmo tempo, o estado busca ampliar sua capacidade de gerar emprego e renda a partir de seus recursos naturais.
A campanha do primeiro turno mostrou que ambos os candidatos foram pressionados a tratar dessa equação.
Omar defendeu obras e exploração econômica, enquanto Maria criticou a resposta do poder público diante dos incêndios e das emergências ambientais. Uma análise publicada pela Folha apontou que os dois adotaram discursos favoráveis ao desenvolvimento econômico e a grandes obras, embora com diferenças na abordagem.
No segundo turno, a questão deverá ser inevitável:
Como desenvolver o Amazonas sem ampliar a degradação ambiental?
Essa é uma pergunta especialmente relevante para o Sul do Estado, onde municípios como Humaitá, Apuí, Lábrea, Boca do Acre, Manicoré e Novo Aripuanã convivem diretamente com problemas relacionados a queimadas, desmatamento, logística e regularização fundiária.
A disputa não será apenas ideológica
Embora a polarização entre os grupos de Lula e Bolsonaro esteja presente, seria um erro estratégico imaginar que a eleição será decidida exclusivamente por essa divisão.
O próprio Omar sinalizou que pretende evitar uma campanha baseada apenas no confronto ideológico e defendeu que o governador precisa governar para todos.
Maria, por outro lado, tem uma oportunidade de transformar sua identificação com o eleitorado conservador em uma plataforma mais ampla, incorporando eleitores que votaram em outros candidatos no primeiro turno.
Por isso, o segundo turno será menos sobre convencer quem já escolheu um lado e mais sobre conquistar quem ainda pode mudar de posição.
O interior pode decidir a eleição
Para o Sul do Amazonas, o segundo turno ganha uma importância especial.
Os municípios possuem realidades muito diferentes de Manaus. Questões como BR-319, energia elétrica, transporte, saúde rural, abastecimento, regularização fundiária, produção agrícola, queimadas e acesso aos serviços públicos têm peso muito maior na decisão do eleitor.
Por isso, as próximas semanas deverão ser marcadas pela presença dos dois grupos políticos no interior e pela movimentação de prefeitos, vereadores, deputados e lideranças comunitárias.
Em cidades como Humaitá, onde a disputa estadual apresentou um comportamento eleitoral próprio, o posicionamento das lideranças locais poderá ganhar valor estratégico.
A eleição começa de novo
O primeiro turno produziu uma fotografia. O segundo turno produzirá outra.
Omar parte da liderança e da experiência de quem já governou o Estado. Maria parte da condição de candidata de oposição ao establishment político e com uma identidade conservadora mais definida.
A questão central agora não é mais quem conseguiu chegar ao segundo turno.
É quem terá capacidade de ampliar sua coalizão eleitoral.
Omar precisa conquistar parte do eleitorado que não votou nele sem perder sua base. Maria precisa transformar os 24,49% obtidos no primeiro turno em uma maioria, incorporando eleitores de centro, grupos políticos municipais e parcelas do eleitorado que escolheram Roberto Cidade e David Almeida.
Até 25 de outubro, Manaus e os 61 municípios do interior serão palco de uma nova rodada de negociações, alianças e confrontos de ideias.

